Zé do Caixão responde às perguntas de diretores brasileiros

A crença em ETs, os momentos mais bizarros e as cenas de terror que marcaram a carreira de José Mojica Marins. As revelações são arrancadas do diretor por 10 cineastas brasileiros.
A convite do Jornal do Brasil, 10 cineastas enviaram perguntas das mais diversas ao diretor de 72 anos, que está prestes a estreiar seu novo e 30º longa-metragem: Encarnação do demônio, selecionado esta semana para a mostra Midnight Movies do 65º Festival de Veneza.

Confira as repostas de Mojica às perguntas de Breno Silveira (Era Uma Vez...), Chico Teixeira (A Casa de Alice), Carlos Reichenbach (Alma Corsária), Domingos Oliveira (Carreiras), João Falcão (A Máquina), José Joffily (Achados e Perdidos), Ivan Cardoso (As Sete Vampiras), Paulo Caldas (Baile Perfumado), Sergio Rezende (Zuzu Angel) e Roberto Santucci (Bellini e a Esfinge).

Como é voltar ao circuito ganhando seis prêmios no Festival de Cinema de Paulínia e ser visto como um cineasta cult?
Foi uma surpresa muito boa ter vencido em Paulínia e outra melhor ainda ter sido indicado para o Festival de Veneza. Acho que Encarnação do Demônio vai ajudar acabar com o preconceito contra o cinema de terror no Brasil, que ainda é muito forte.

Afinal, você viu ou não discos voadores?
Ainda não, mas ainda acredito neles e acho que até 2010 vou conseguir ver um. Já participei de várias experiências para ver ETs, só que até agora nada.

Você faz tantos filmes de terror como uma forma de entender melhor o sentido da morte? Tem medo de morrer?
Não tenho medo, porque acredito que a morte não é o fim. Não acho que exista encarnação, mas para mim nossa energia não desaparece, fica circulando por aí. Uma das coisas que me levaram a fazer filmes de terror foi justamente um episódio que aconteceu na Vila Anastácio (SP) quando eu era criança, quando um vendedor de batata morreu. No enterro, todos estavam chorando, pedindo para ele voltar, até que, inesperadamente, ele se levantou do caixão. Foi um susto danado, todo mundo saiu correndo. Mais tarde eu soube que ele teve catalepsia, não voltou da morte.

Você tem vontade de fazer uma comédia?
Tenho um roteiro para um curta de animação, que gostaria de fazer. O nome é A revolta das Xoxotas. É uma comédia, em que as perseguidas se rebelam com a falta de homem no mercado. Seria um filminho de 10 minutos, com muito humor negro.

O que você gostaria de escrever em seu epitáfio?
Seria algo como "cinema é minha religião". Dediquei toda a minha vida à arte, acho que esta mensagem resumiria bem o que fiz de mais importante.

Você tem medo do escuro?
Fui um garoto muito medroso, hoje não sou mais. Morria de medo do escuro, não conseguia dormir com a luz apagada de jeito nenhum. Só fui tentar resolver isso antes de me casar, aos 19 anos. Fui ao cemitério sozinho, à noite, para encarar o meu terror. Lá vi umas coisas se mexendo perto do túmulo, fiquei em pânico. Depois um padre me explicou que aquilo era fogo-fátuo, os gases que saem da sepultura.

Que cena você considera a mais horripilante de seus filmes?
A cena em que o homem é pendurado num gancho em Encarnação do Demônio. Parece efeito especial, mas é real, o ator estava mesmo pendurado pela pele. Antes de começar a filmar, fui ao programa de entrevistas do João Gordo e pedi que todas as pessoas esquisitas que quisessem participar do longa entrassem em contato comigo. Então chegou esse pessoal que se espeta, passa agulhas e ganchos pela pele. Ficou impressionante, mas na hora achei que o rapaz fosse cair.

Como você resolveu a famosa maldição de Encarnação do Demônio, que deixou de ser filmado várias vezes porque alguns dos envolvidos no projeto morreram?
Acho que desta vez deu certo porque o produtor, o Paulo Sacramento, é casado e tem sócios. Das outras vezes, os produtores eram sozinhos na vida, e quando morriam o filme voltava à estaca zero. Foi assim na década de 70, quando um americano quis produzir o filme, mas teve câncer. Em 1987, o Augusto de Cervantes quis tocar o projeto, mas enfartou. Depois o Ivan Novaes chegou a fechar com equipe e elenco, chamou a Ítala Nandi para atuar. Um dia, ele convidou todo mundo para uma peixada na sua casa. Mandei até fazer um terno branco. Quando estava me preparando para ir, a Ítala me ligou e disse para voltar a usar o terno preto, porque nós iríamos a um enterro. Ele estava tão feliz em fazer o longa que enfartou. A partir daí começaram a dizer que o roteiro tinha uma maldição.

Você já presenciou uma cena de terror durante uma filmagem?
Algumas vezes. Agora mesmo, em Encarnação, fizemos uma cena em que uma mulher sai de dentro do corpo de um porco morto. A atriz começou a chorar dentro do bicho, e a equipe pensou que ela estivesse com medo e se revoltou, a filmagem parou. Na verdade, ela não estava em pânico, chorava de emoção, mas não conseguia explicar isso para ninguém naquela hora. Foi uma situação muito difícil.

Qual o seu pior pesadelo? Ele foi usado em algum filme?
Era muito mulherengo quando jovem. Uma vez sonhei que estava cercado por um monte de mulheres e elas acabavam cortando o meu pênis. Foi tão apavorante que reproduzi essa cena em Perversão (1979).

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